Hackers conseguiram acesso ao sistema de propulsão de um superpetroleiro carregado com mais de 2 milhões de barris de petróleo bruto enquanto o navio navegava rumo ao Texas, nos Estados Unidos, segundo confirmaram a Guarda Costeira americana e o FBI. O caso, que veio a público em setembro e segue sendo detalhado pela imprensa internacional nos primeiros dias de outubro, é descrito por especialistas como uma das invasões mais invasivas já registradas contra um navio em alto-mar — e levanta suspeitas, ainda não confirmadas oficialmente, de envolvimento do Irã.

O ataque ao VL Prosperity

O navio no centro do caso é o VL Prosperity, um petroleiro de bandeira liberiana com cerca de 333 metros de comprimento — maior que o Chrysler Building colocado na horizontal, segundo descreveu a Insurance Journal. A embarcação deixou o terminal de Sidi Kerir, no Egito, em 1º de agosto, rumo a Galveston, no Texas, de acordo com reportagem da TechCrunch.

Em 7 de agosto, próximo ao Estreito de Gibraltar, o navio sofreu a invasão. Segundo reportagem da CBS News, que cita a agência estatal iraniana Mehr News (que teria divulgado detalhes do ataque em 20 de agosto), os invasores teriam acessado os sistemas de propulsão, navegação e carga da embarcação, reduzido o fluxo de líquido de arrefecimento do motor, alterado a velocidade das máquinas e interferido no sistema de combustível. As comunicações do navio ficaram fora do ar por cerca de 30 horas, segundo a mesma reportagem.

Diante dos sinais de comprometimento, equipes do FBI e da Guarda Costeira dos Estados Unidos embarcaram no VL Prosperity em 21 de agosto para uma inspeção que durou quatro dias, de acordo com a CBS News. Um segundo petroleiro, cujo nome não foi divulgado pelas autoridades, foi abordado em 24 de agosto no Golfo do México após apresentar indícios semelhantes de invasão, segundo apurou a SecurityWeek.

Irã é suspeito, mas não há confirmação oficial

A principal pista sobre a autoria do ataque vem da própria imprensa estatal iraniana, que reivindicou detalhes da operação. Mas as autoridades americanas evitam uma atribuição formal. Em entrevista à CBS News, a contra-almirante Amy Grable, da Guarda Costeira, afirmou que os investigadores "encontraram evidências de um ator cibernético malicioso", mas destacou que uma atribuição formal normalmente exige semanas ou meses de análise comparando táticas, técnicas e protocolos usados no ataque com os de grupos já conhecidos.

Segundo a TechCrunch, o FBI confirmou estar avaliando se o Irã está por trás da invasão, mas sem fechar conclusão. O ex-funcionário da Guarda Costeira Quinton DuBose pediu cautela, afirmando à SecurityWeek que "atores ligados ao Irã têm histórico de superestimar suas próprias capacidades cibernéticas".

Em nota conjunta citada por diversos veículos, FBI e Guarda Costeira informaram que, até o momento, "não há registros de interrupção operacional, instabilidade do navio, risco físico à tripulação ou impacto ambiental". A contra-almirante Grable acrescentou que as inspeções indicaram que o petroleiro estava seguro para operar.

Um problema maior: quase 20 navios sob ameaça

O episódio do VL Prosperity não é um caso isolado. Segundo reportagem da SupplyChainBrain, publicada em 4 de outubro, agências do governo americano já monitoravam, até setembro, ameaças cibernéticas contra cerca de 20 embarcações de carga em todo o mundo, e a Guarda Costeira passou a exigir aviso prévio de navios que suspeitem ter sido comprometidos antes de entrarem em portos dos EUA.

Como cerca de 80% do comércio mundial de mercadorias é transportado por via marítima, segundo dado citado pela SecurityWeek, especialistas em segurança marítima classificam o caso como um sinal de alerta sobre a dependência crescente de sistemas conectados em rede a bordo de navios — da navegação ao controle de motores. "Não podemos ter esse tipo de acesso não autorizado. Todo marítimo deveria estar extremamente preocupado", disse o especialista em cibersegurança marítima Alex Soukhanov à SupplyChainBrain.

De acordo com a Insurance Journal, o VL Prosperity seguia ancorado ao largo de Galveston até a publicação de sua reportagem, em 5 de outubro, enquanto a investigação sobre a origem exata da invasão prossegue. Até o momento, nenhum grupo foi oficialmente responsabilizado.

Fontes consultadas

Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.