Empresas de tecnologia chinesas restringiram ou desativaram ferramentas de "companheiros virtuais" baseados em inteligência artificial depois que o governo da China passou a fiscalizar de forma mais rigorosa uma regulamentação em vigor desde 15 de julho de 2026. A norma não proíbe os serviços de companhia virtual, mas impõe limites a como esses sistemas podem interagir com os usuários.
O que a regra determina
Segundo reportagem do Times Brasil, que cita informações do jornal espanhol El País, os sistemas não podem substituir a convivência social das pessoas, exercer controle psicológico ou estimular dependência e vício. Para usuários adultos, os modelos de IA não podem buscar agradar excessivamente, manipular emoções, influenciar decisões ou prejudicar relações do usuário com outras pessoas. As restrições são mais amplas para menores de idade, que não podem ter acesso a recursos antropomórficos voltados a simular relações íntimas virtuais.
A regulamentação chinesa também exige transparência — as plataformas precisam deixar claro quando o usuário está interagindo com uma inteligência artificial — e prevê alertas automáticos em casos de uso excessivo. Em situações de risco de autolesão ou suicídio, o serviço deve intervir e notificar um contato de emergência do usuário.
Empresas afetadas
A Administração do Ciberespaço da China, órgão regulador da internet no país, justificou as novas exigências com preocupações sobre a saúde física e mental de menores de idade e, por consequência, sobre a vida e a saúde da população em geral. Como resposta, a ByteDance, a Alibaba e a Tencent desativaram recursos que permitiam a criação de agentes personalizados a partir de seus chatbots de uso geral — Doubao, Qwen e Yuanbao, respectivamente. Aplicativos dedicados especificamente à companhia virtual, como o Maoxiang, da ByteDance, e o Xingye, da MiniMax, continuam no ar, mas agora com controles mais rígidos e verificação de idade. Já o aplicativo Miaoshi, da NetEase, foi encerrado.
Vínculos emocionais e queda de nascimentos
O Times Brasil cita uma pesquisa do final de 2025, feita pelo instituto de pesquisa da Tencent em parceria com um centro ligado à Universidade Fudan, segundo a qual 19,6% dos jovens entrevistados consideravam a inteligência artificial uma amiga comum, 12,6% uma amiga íntima e 6,1% uma parceira virtual. Em 2025, a China registrou o menor número de nascimentos desde a fundação da República Popular, com a população recuando pelo quarto ano consecutivo.
Para a pesquisadora Zilan Qian, do Oxford China Policy Lab, a nova regra pode ter também uma dimensão ideológica: parceiros de inteligência artificial que afastem pessoas — sobretudo mulheres — de relações humanas poderiam conflitar com a meta do governo chinês de elevar a taxa de natalidade. Já Yaoxi Shi, da Imperial College Business School, afirma que o próprio funcionamento dos sistemas de IA pode facilitar vínculos emocionais, já que tendem a validar o usuário, questionar menos e incentivar o compartilhamento de dados pessoais. Para ela, a regra chinesa pode servir de referência para outros países, embora o apego emocional também possa surgir em assistentes de IA que não foram criados como companheiros virtuais.
Fontes consultadas
Times Brasil, com informações do jornal El País.
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
