O Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) divulgou nesta terça-feira (20) uma nota de repúdio a declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, sobre o sistema eleitoral brasileiro, classificando-as como uma "nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro". Segundo o Itamaraty, desta vez as ofensas de Milei foram dirigidas ao Poder Judiciário brasileiro e ao sistema de votação eletrônica do país, a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial, que tem Lula e Flávio Bolsonaro como candidatos.

Na nota, o ministério afirmou que o voto eletrônico brasileiro "é comprovadamente seguro" e reiterou que a decisão sobre o futuro do país cabe exclusivamente ao povo brasileiro, nas urnas.

O que disse Milei

Segundo apuração do Poder360, Milei criticou o sistema de votação do Brasil e chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "ladrão" em publicações na rede social X. Em uma delas, o presidente argentino escreveu esperar que "o último truque sujo da campanha deles não inclua roubar a eleição". Ele também compartilhou um vídeo que associava uma fala de Lula ao machismo. Procurado por veículos de imprensa, o governo argentino não havia se manifestado publicamente sobre a nota do Itamaraty até a publicação desta reportagem.

Uma crise que começou em julho

O episódio é o mais recente de uma sequência de atritos diplomáticos entre Brasília e Buenos Aires que remonta ao fim de julho, quando Milei declarou apoio público à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Na ocasião, durante a convenção partidária que oficializou a candidatura, o presidente argentino chamou o socialismo de "lixo", mencionou o que definiu como "risco Lula" e dirigiu xingamentos ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Lula respondeu com ironia em 27 de julho, e Milei voltou a atacar o petista, chamando-o de "ladrão" e "corrupto" — adjetivos repetidos nas declarações mais recentes sobre as urnas. Em agosto, o governo brasileiro decidiu manter no país o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, até que Milei cessasse as ofensas a autoridades brasileiras, medida equivalente a um recuo diplomático. Em reciprocidade, o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, foi liberado para retornar à Argentina.

Sistema eleitoral brasileiro

O Brasil utiliza urnas eletrônicas desde 1996 e o sistema passa por auditorias públicas conduzidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em todas as eleições, com testes de integridade acompanhados por partidos, entidades da sociedade civil e órgãos de fiscalização. Questionamentos sobre a segurança do voto eletrônico já haviam sido levantados por outros atores políticos em eleições anteriores, sem que fraudes tenham sido comprovadas pelos órgãos de fiscalização competentes.

Esta reportagem não aborda pesquisas de intenção de voto ou projeções de resultado do segundo turno, em linha com a política editorial deste portal para o período eleitoral.

Fontes consultadas: Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty); Poder360 (20/10/2026); InfoMoney; Itatiaia.

Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.