Uma onda de protestos estudantis por mais investimento na educação, iniciada na última semana de setembro de 2026 na região de Île-de-France, se espalhou por todo o território francês e seguiu até pelo menos 2 de outubro. Em 1º de outubro, cerca de 1.027 escolas foram afetadas pelas manifestações e aproximadamente 400 unidades fecharam as portas, recorrendo ao ensino remoto. Quase 30 campi universitários também aderiram aos protestos.

As autoridades francesas registraram cerca de 2.000 detenções, das quais cerca de 90% eram de menores de idade. O balanço de feridos é expressivo: 170 estudantes, 65 funcionários de escolas — entre eles 40 diretores — e mais de 300 policiais e gendarmes machucados. Mais de 100 escolas sofreram danos graves, incluindo incêndios, ataques com combustível contra diretores e uso de fogos de artifício durante os confrontos.

Governo classifica atos como "violência urbana" e amplia restrições

O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, classificou a situação como "violência urbana" que, segundo ele, "não tem mais nada a ver com expressão legítima" — uma avaliação atribuída diretamente ao ministro, e não um consenso estabelecido sobre a natureza dos protestos. Em resposta à escalada, o governo determinou o fechamento preventivo de escolas e proibiu manifestações nas proximidades de prédios já fechados. O ministro da Justiça, por sua vez, pediu que promotores busquem responsabilizar civilmente os pais de menores por danos causados durante os atos.

Como gesto de concessão aos manifestantes, o governo retirou do orçamento de 2027 a cobrança de taxa de matrícula em cursos técnicos superiores (BTS), uma das pautas centrais dos protestos estudantis.

Pano de fundo: corte bilionário no orçamento e dívida recorde

Os protestos ocorrem em meio a um momento delicado nas contas públicas francesas. Em 1º de outubro, o governo do premiê Sébastien Lecornu anunciou um corte orçamentário de aproximadamente 54 bilhões de euros, medida que busca reduzir o déficit público para 5% do PIB — percentual inferior à projeção de 6,5% caso nenhum corte fosse feito. A dívida pública francesa está em 119% do PIB, um recorde histórico para o país. A submissão oficial da proposta orçamentária ao Parlamento está marcada para 6 de outubro.

A relação entre o pacote de cortes e a eclosão dos protestos é alvo de disputa política: setores de esquerda atribuem a mobilização estudantil diretamente às medidas de austeridade do governo, enquanto integrantes do governo contestam essa leitura e enfatizam o caráter de "violência urbana" dos episódios mais recentes. Trata-se de uma controvérsia política em aberto, e não de um fato estabelecido — esta reportagem não toma partido entre as narrativas.

Fontes consultadas: Il Foglio (ilfoglio.it) e Euronews (euronews.com).

Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.