A principal coalizão de oposição da Venezuela, a Plataforma Unitária Democrática (PUD), reafirmou no domingo (18) a liderança política de María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, e apresentou um documento batizado de "Grande Acordo Nacional para a Recuperação da República", com 14 pontos para conduzir uma transição democrática no país. O anúncio foi feito em um evento na sede do partido Encontro Cidadão, em Caracas, e ocorre em paralelo à terceira rodada de negociações entre uma facção da oposição e o governo interino, segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O texto foi lido por Biagio Pilieri, líder do partido Convergência, enquanto Roberto Enríquez, secretário-geral da PUD, falou em nome da coalizão. Machado, que vive atualmente no Panamá, participou do anúncio por videochamada.
O que muda desde a captura de Maduro
O cenário político venezuelano foi alterado em janeiro de 2026, quando forças dos Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro e o levaram para Nova York, onde aguarda julgamento. Na ocasião, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina do país, em um arranjo que segue sob forte influência de Washington. Desde então, uma delegação da oposição e representantes do governo interino mantêm rodadas de negociação sobre os termos de uma eventual transição, incluindo a realização de eleições.
Dinorah Figuera, que lidera a delegação opositora nessas tratativas, afirmou na sexta-feira (16) que seu trabalho é assegurar que as negociações resultem em eleições — mas o acordo apresentado no domingo não estabelece uma data específica para o pleito. Segundo relatos da imprensa internacional, o partido Vente Venezuela, legenda de Machado, defende que a votação ocorra já em 2027.
Os 14 pontos do acordo opositor
Entre as principais exigências do documento estão a libertação incondicional de todos os presos políticos, o fim da perseguição política e o desmantelamento do aparato repressivo, com garantias de justiça de transição; o direito de retorno seguro para exilados; e uma transição pacífica rumo a eleições livres e competitivas, com prioridade para o pleito presidencial.
O acordo também prevê a reinstitucionalização do Estado e o restabelecimento da ordem constitucional, a proibição da reeleição indefinida para cargos do Executivo, a separação entre governo, Estado e partidos, a restituição de direitos políticos e o fim de inabilitações que impedem candidaturas — medida que atinge diretamente a própria Machado, impedida de concorrer a cargos eletivos por decisões das autoridades venezuelanas nos últimos anos.
Roberto Enríquez afirmou que Machado deve ter condições de retornar ao país "o quanto antes" para conduzir o processo, e declarou que "a democracia, a liberdade e as eleições na Venezuela são inevitáveis". A coalizão sustenta ainda que a legitimidade de seu projeto remonta às primárias internas de 2023, quando Machado foi escolhida como líder da oposição, e reitera que Edmundo González Urrutia venceu a eleição presidencial de 2024 — uma alegação da própria oposição, baseada em atas coletadas por seus fiscais, que não tem reconhecimento do lado governista e não constitui, neste momento, um fato estabelecido de forma consensual.
Bloqueio ao retorno de Machado e papel dos EUA
Machado afirmou, na mensagem transmitida durante o evento, que o acordo marca "o início de uma nova era" e que "a Venezuela será livre". Ela também agradeceu publicamente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela operação que resultou na captura de Maduro, chamando-a de ação que "abriu uma porta ao progresso".
Apesar do apoio verbal ao papel americano na queda de Maduro, Machado segue fora do país — ela deixou a Venezuela de forma clandestina em 2025 para receber o Nobel da Paz e, segundo seu partido, já tentou retornar ao menos sete vezes, sendo barrada pelas autoridades venezuelanas em todas elas. Parte da imprensa internacional observa que Washington tem mantido relações diretas com Delcy Rodríguez e não pressionou de forma decisiva por um retorno imediato de Machado ao país, o que alimenta a leitura, entre analistas e apoiadores da oposição, de que o governo americano estaria, na prática, favorecendo a permanência de Rodríguez à frente do Executivo interino. Autoridades dos Estados Unidos negam qualquer obstrução ao retorno da líder opositora. Até a publicação desta reportagem, o governo interino venezuelano não havia se manifestado publicamente sobre o novo acordo da PUD.
Fontes consultadas
- Jamaica Observer (via agência de notícias AP) — "Venezuela opposition alliance reaffirms Nobel laureate Machado as leader", 18/10/2026
- El Diario (Venezuela) — "Plataforma Unitaria presentó su propuesta de Acuerdo Nacional para la transición en Venezuela", 18/10/2026
- Semana — "Oposición venezolana ratifica a María Corina Machado, Nobel de la Paz, como líder política", 18/10/2026
- Bloomberg — "Venezuela's Machado Tops Poll as US-Backed Negotiations Resume", 14/10/2026
- Atalayar — contexto sobre a posse interina de Delcy Rodríguez, 05/01/2026
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
