Negociadores do Irã se reuniram com mediadores do Catar em Doha no sábado (31), em uma nova rodada de conversas para tentar encontrar um caminho que ponha fim à guerra no Golfo entre o país e a dupla formada por Estados Unidos e Israel. O encontro em Doha foi precedido por mais de 12 horas de conversas em Teerã, na sexta-feira (30), entre enviados iranianos e catarianos. Segundo fonte ouvida pela agência Reuters, as negociações têm sido coordenadas com Washington.

O movimento diplomático ocorre a poucos dias das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, data a partir da qual países da região e analistas citados pela imprensa americana esperam que o presidente Donald Trump decida se retoma ou não os bombardeios contra o Irã, suspensos nas últimas semanas.

Como a guerra chegou a este ponto

Segundo o Al Jazeera, o conflito atual entre Irã, Estados Unidos e Israel começou em 28 de fevereiro de 2026, quando forças americanas e israelenses lançaram ataques contra o território iraniano. O episódio ocorreu menos de um ano depois de uma guerra anterior de 12 dias, em junho de 2025, na qual EUA e Israel já haviam atingido instalações nucleares iranianas em Fordow, Natanz e Isfahan.

Desde o início do conflito de fevereiro, o Estreito de Ormuz — rota por onde passa parte significativa do petróleo mundial — está disputado, e os portos iranianos enfrentam um bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos.

Propostas na mesa

De acordo com reportagens do Khaleej Times e da agência indiana PTI (via The Print), o Catar levou a Teerã, cerca de uma semana antes do encontro de Doha, um plano de sete dias em que EUA e Irã dariam passos diários para construir confiança mútua antes de negociações de paz mais amplas. Um alto funcionário iraniano classificou essa proposta como insatisfatória.

O Irã, por sua vez, defende desde setembro um plano próprio, também estruturado em sete dias, que prevê o fim do bloqueio aos portos iranianos, a liberação de ativos financeiros do país e a aprovação de uma rota controlada pelo Irã dentro do Estreito de Ormuz, com a reabertura do estreito ocorrendo na sequência. Segundo as mesmas fontes, Trump rejeitou essa proposta até o momento.

O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, disse que Teerã está avaliando uma carta enviada pelo vice-presidente americano JD Vance a um alto funcionário de segurança do Irã, e afirmou que o plano iraniano continua sendo "a única proposta na mesa" para a reabertura do estreito. Trump, por sua vez, minimizou o conteúdo da carta de Vance, dizendo que ela tratava apenas da entrada de suprimentos médicos no território iraniano.

Washington sinaliza diplomacia, mas não descarta ataques

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que Trump ainda não tomou uma decisão sobre eventuais novos ataques ao Irã, mas que o presidente prefere uma solução diplomática. Rubio afirmou que os contatos entre os dois países "nunca cessaram", sem citar prazos para um eventual acordo.

Segundo reportagens do Khaleej Times, Trump teria suspendido ataques ao Irã nas semanas que antecederam a eleição de meio de mandato nos EUA, na qual republicanos tentam manter o controle do Congresso americano. As mesmas reportagens afirmam que Trump pediu que israelenses mantenham o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu no poder para que os dois possam, segundo suas palavras, "terminar o trabalho" — declaração atribuída a Trump pela imprensa, e não confirmada por fala direta e gravada do presidente nas fontes consultadas.

Irã eleva alerta militar e parlamentares pedem saída do Tratado de Não Proliferação

Em comunicado publicado no Telegram, o líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, ordenou que as Forças Armadas do país se preparem para responder a qualquer novo ataque. Segundo o texto, qualquer ameaça exigirá uma resposta "imediata, impactante e geograficamente irrestrita", e comandantes relataram alta prontidão no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz, no Golfo de Omã e nas fronteiras noroeste e sudeste do país. Mojtaba Khamenei assumiu a liderança suprema após a morte do pai, o aiatolá Ali Khamenei, no início da guerra, e não aparece publicamente desde então, segundo o Al Jazeera.

Paralelamente às negociações, parlamentares iranianos voltaram a defender a retirada do país do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). De acordo com o Al Jazeera, o deputado Mahmoud Nabavian pediu a saída do tratado e a revisão da doutrina nuclear do país, citando os custos da guerra e das sanções. Ebrahim Rezaei, do Comitê de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento, disse à agência iraniana Fars que dez propostas de retirada já foram registradas e estão em análise. A facção linha-dura Paydari Front fez pedido semelhante em 24 de outubro.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que as políticas do país continuam seguindo a fatwa do líder supremo contra armas de destruição em massa. Já o porta-voz da Guarda Revolucionária (IRGC), Mohammad Akraminia, advertiu que, em caso de novos ataques dos EUA e de Israel, o Irã responderá com força e que o conflito se espalharia por uma área "muito maior" do que a atual.

O TNP permite a saída de um país-membro mediante aviso prévio de três meses, caso "eventos extraordinários" ameacem seus interesses supremos. Uma eventual retirada do Irã não significaria, por si só, que o país passaria a fabricar armas nucleares — a posição oficial do governo iraniano contra esse tipo de arma não foi alterada até a publicação desta reportagem.

Fontes consultadas

Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.