O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, confirmou neste domingo (4) que o governo dos Estados Unidos propôs à Ucrânia e à Rússia a realização de uma reunião trilateral em nível técnico até o final de outubro. A declaração foi dada em entrevista coletiva em Kyiv, ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz, que visitava a capital ucraniana para tratar de assuntos bilaterais de defesa.
"O lado americano está em contato com a Ucrânia e com a Rússia e está propondo algum tipo de reunião em nível técnico, em formato trilateral, até o fim de outubro", disse Zelensky, segundo o portal Kyiv Independent. O presidente ucraniano afirmou ter confirmado à equipe negociadora americana, em 3 de outubro, que seu país está pronto para apoiar o encontro. "Estamos abertos aos Emirados Árabes Unidos ou a qualquer outro país proposto pelo lado americano", declarou, segundo o portal ucraniano UNN.
Um ciclo de tentativas que já se arrasta por meses
A proposta é a mais recente de uma longa sequência de tentativas de reaproximação diplomática ao longo de 2026, que incluiu rodadas em Genebra e conversas preparatórias em Abu Dhabi, além de visitas dos enviados especiais dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner a Kyiv e a Moscou. Nenhuma dessas iniciativas produziu, até agora, um cessar-fogo amplo ou um acordo de paz.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, já havia sinalizado abertura ao calendário de outubro em declarações feitas em Nova Délhi, em 13 de setembro: "Não descartamos essa possibilidade. Estamos falando de um futuro previsível. Então outubro certamente é uma possibilidade", disse, segundo a agência estatal russa Tass. Até a publicação desta reportagem, Moscou não havia confirmado oficialmente sua participação na data agora citada por Zelensky, nem o formato final do encontro.
Pano de fundo: ataques recordes à rede elétrica antes do inverno
O anúncio diplomático ocorre em meio a uma escalada dos bombardeios russos contra a infraestrutura energética ucraniana. Em 1º de outubro, a Rússia lançou 107 drones contra o país — 63 deles do tipo "Shahed" turbojato —, segundo a Força Aérea ucraniana. O ataque provocou cortes de energia em Kharkiv (leste), Chernihiv e Sumy (norte), Rivne (noroeste) e Kirovohrad (centro). Uma pessoa ficou ferida em Odesa após um prédio comercial ser atingido; em Kyiv, uma escola foi danificada, mas não houve vítimas porque alunos e professores estavam em abrigo.
A operadora estatal da rede elétrica, Ukrenergo, afirmou que "os trabalhadores do setor energético estão fazendo todo o possível para restabelecer a energia a todos os consumidores desconectados o mais rápido possível". Zelensky classificou os mísseis interceptadores como vitais: "Cada míssil interceptador realmente salva vidas. E quanto mais perto do inverno, mais dessa proteção precisamos", disse, segundo a Euronews. Autoridades ucranianas apontam que a ofensiva repete o padrão observado no inverno passado, quando ataques à malha energética coincidiram com temperaturas de até 20°C negativas.
Um possível pano de fundo econômico: o acordo da Lukoil
Segundo reportagem do jornal americano The New York Times, divulgada em 3 de outubro e replicada pelo Kyiv Independent, as negociações de paz passaram a incluir também a discussão de uma transação bilionária envolvendo ativos da petrolífera russa Lukoil — refinarias, campos de petróleo e postos de combustível ao redor do mundo. Empresários ligados aos enviados Jared Kushner e Steve Witkoff estariam avaliando a operação, que precisaria de aval tanto de Washington quanto do Kremlin.
De acordo com o NYT, a proposta teria sido apresentada pelo próprio presidente russo Vladimir Putin a Witkoff e Kushner durante visita a Moscou em 5 de setembro, como forma de "demonstrar aos russos que ainda seria possível fazer negócios com os Estados Unidos". A Lukoil, segunda maior petrolífera da Rússia, está sob sanções americanas desde 2025; o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já declarou que as sanções visam pressionar Moscou a negociar, já que "as receitas de combustíveis fósseis têm papel central em sustentar o esforço de guerra russo".
Análise: ceticismo é justificado
Vale registrar que datas para rodadas trilaterais já foram anunciadas e adiadas diversas vezes ao longo de 2026 — em fevereiro, março e setembro, por exemplo —, sem que um encontro de fato ocorresse no formato e no prazo inicialmente divulgados. A proposta de outubro, portanto, deve ser tratada como isso que é até aqui: uma proposta americana em discussão, confirmada publicamente apenas pelo lado ucraniano, sem resposta formal de Moscou sobre data, local ou agenda. Ao mesmo tempo, os ataques à rede elétrica ucraniana são fato verificado por múltiplas fontes e autoridades ucranianas, e não dependem de confirmação diplomática.
Fontes consultadas
- Kyiv Independent — US proposes trilateral talks with Russia, Ukraine by end of October — 4/10/2026
- UNN — The United States proposed a trilateral meeting between Ukraine and Russia — 4/10/2026
- Ukrainska Pravda — Zelenskyy confirms US proposal for trilateral talks with Russia — 4/10/2026
- TASS — Kremlin does not rule out trilateral Ukraine talks in October — declarações de 13/9/2026
- Euronews — Several regions of Ukraine hit by power cuts after Russian strikes — 1/10/2026
- Kyiv Independent — U.S. peace negotiations could now involve multi-billion dollar Lukoil deal, NYT reports — 3/10/2026
- CNBC — Russia ramps up attacks on Kyiv infrastructure as U.S. makes fresh push for peace talks — 5/10/2026
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
