Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), estima que a estagnação ou o congelamento de benefícios sociais e previdenciários pode provocar retração severa na atividade econômica de cidades do interior do Brasil. O estudo foi divulgado na semana de 12 a 18 de outubro de 2026.
Segundo a pesquisa, à qual a Agência Brasil teve acesso, aposentadorias, Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) podem representar quase a metade do orçamento das famílias mais pobres em municípios fora das regiões metropolitanas.
Dependência maior fora dos grandes centros
O Brasil tem 5.569 municípios, dos quais cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, o peso das transferências públicas na renda agregada é o dobro do observado nos grandes centros, segundo o Made. No Ceará, por exemplo, os benefícios respondem por 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana, e por 40% da renda nas cidades do interior.
Cenários simulados
O estudo compara o período de 2022 a 2025 — quando houve ganhos reais para o BPC e para aposentadorias — a um cenário hipotético sem esses reajustes, projetado para os três anos seguintes. Nessa simulação, a renda agregada do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar atual.
As maiores quedas projetadas ocorreriam no interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, entre 17% e 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco teriam retração em torno de 15%, enquanto Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia registrariam quedas de 10% a 13%.
Impacto sobre a pobreza
De acordo com o Made, a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza fora das regiões metropolitanas, sendo 2,4 milhões para a extrema pobreza. Os maiores aumentos absolutos de pobreza projetados seriam na Bahia (até 336 mil pessoas), em São Paulo (até 263 mil) e em Minas Gerais (até 251 mil).
"Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica", afirmou à Agência Brasil a economista Luiza Nassif, professora da Unicamp e pesquisadora do Made. Segundo ela, famílias que vivem no limite da subsistência são diretamente afetadas por qualquer reajuste abaixo da inflação: "Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza."
A pesquisadora destaca ainda que o dinheiro desses benefícios costuma ser gasto quase integralmente em itens de primeira necessidade, o que sustenta o comércio local e a arrecadação dos municípios.
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
Fontes consultadas
Agência Brasil — "Cortes em auxílios sociais podem gerar retração em cidades do interior" (17/10/2026), com dados do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEA-USP)
