A instalação O Barco, da artista e escritora portuguesa Grada Kilomba, está aberta ao público desde terça-feira (22 de setembro) no Espaço Galpão do Sesc Pompeia, na zona oeste de São Paulo. A obra, que evoca o tráfico transatlântico de africanos escravizados, fica em cartaz até 25 de outubro, com entrada gratuita.
Uma obra de escala monumental
Segundo a Agência Brasil, a montagem paulistana reúne 134 blocos de madeira queimada distribuídos por cerca de 220 metros quadrados, desenhando ao longo de 32 metros a silhueta do fundo de uma grande embarcação. A composição remete ao espaço dos porões dos navios negreiros, onde milhões de pessoas africanas foram transportadas à força. Na versão original, apresentada em Lisboa em 2021, a instalação tinha cerca de 140 blocos, segundo o museu MAAT; em São Paulo, precisou ser adaptada às dimensões do galpão projetado por Lina Bo Bardi.
No centro da obra, blocos trazem gravado em dourado um poema da própria artista, traduzido para iorubá, quimbundo, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria.
Memória e apagamento
Em entrevista à Agência Brasil, Kilomba explicou que a obra questiona a forma gloriosa com que as navegações costumam ser retratadas em monumentos da Europa e da América Latina, e busca mostrar o que esses barcos carregavam. A artista também relacionou o trabalho à tragédia grega Antígona e ao debate sobre quem tem direito a ser lembrado e sepultado. Para ela, o oceano segue sendo cemitério não só da escravização, mas também de guerras, crises climáticas e migrações forçadas atuais.
O Brasil foi o principal destino do tráfico: mais de 4,8 milhões de africanos escravizados cruzaram o Atlântico rumo ao país, de acordo com dados citados pela Agência Brasil. Em março deste ano, a Assembleia Geral da ONU aprovou resolução que reconhece o tráfico transatlântico de escravizados como o crime mais grave já cometido contra a humanidade.
Itinerância
O Barco estreou em 2021 às margens do rio Tejo, em frente ao MAAT, em Lisboa, e também foi apresentado no pátio da Somerset House, em Londres. No Brasil, a obra ficou 28 meses no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), que concebeu a atual exposição. No Sesc Pompeia, ela divide o espaço com outros dois trabalhos da artista: a videoinstalação Opera to a Black Venus e a instalação Compressed Time.
Serviço
- O quê: exposição com O Barco, Opera to a Black Venus e Compressed Time, de Grada Kilomba
- Onde: Espaço Galpão do Sesc Pompeia, São Paulo
- Quando: até 25 de outubro de 2026
- Quanto: grátis
Fontes consultadas
- Agência Brasil — "Instalação no Sesc Pompeia denuncia marcas do tráfico de escravizados" (22/09/2026)
- MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Lisboa) — página da exposição "Grada Kilomba: O Barco/The Boat"
- Somerset House (Londres) — página da performance "O Barco"
- Time Out Lisboa — "Poder, linguagem e escravatura. Grada Kilomba quer reescrever a história"
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
