Um ano após a Operação Contenção, a mais letal da história do Rio de Janeiro, um relatório da Human Rights Watch (HRW) divulgado em 28 de outubro de 2026 aponta uso insuficiente de câmeras corporais pelas forças policiais e documenta indícios de má conduta durante a ação. Segundo a Agência Brasil, as investigações sobre a autoria das mortes, conduzidas por Polícia Civil, Polícia Federal e Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), continuam sem conclusão.
A operação ocorreu em 28 e 29 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, zona norte do Rio, com a participação de cerca de 2.500 policiais civis e militares, resultando na morte de 122 pessoas — 117 civis, entre eles duas crianças, e cinco policiais. É considerada a ação policial mais letal já registrada na cidade.
O que diz o relatório da HRW
Segundo o relatório "A Strategy of Death", da Human Rights Watch, apenas cerca de 23% dos policiais envolvidos usaram câmeras corporais, equipamento obrigatório por lei estadual e por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A entidade documentou mais de 250 casos de obstrução das câmeras e afirma que nenhuma das mortes foi registrada pelas imagens analisadas. De acordo com a HRW, mais de 40% das vítimas civis foram atingidas por tiros na cabeça e cerca de 75% foram alvejadas pelas costas; a proporção encontrada foi de 17 mortos para cada ferido levado preso. Das cerca de 100 ordens de prisão previstas para a operação, apenas 17 foram efetivamente cumpridas, segundo o levantamento da entidade.
Sophia Jones e César Muñoz, da HRW, pediram investigação independente e responsabilização dos envolvidos. As afirmações da entidade tratam de indícios levantados em sua apuração e ainda não foram confirmadas por decisão judicial.
O que apuram as autoridades brasileiras
Segundo a Agência Brasil, passado um ano, o Ministério Público do Rio de Janeiro já ouviu 255 policiais, 61 pessoas presas na operação e 45 familiares de vítimas. Até junho de 2026, 27 policiais haviam sido indiciados por crimes como desvio de armas e invasão de domicílio. Uma revisão das câmeras do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) constatou que 17% delas foram deliberadamente desligadas durante a ação, segundo a reportagem.
Em relatório anterior, de março de 2026, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), já havia criticado a tática de cerco conhecida como "martelo e bigorna" usada na operação e apontado fragilidades estruturais na apuração de casos de violência policial no Brasil.
O Brasil de Hoje procurou a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que não concedeu entrevista sobre o tema. A Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro também foram procuradas e não responderam até a publicação desta reportagem.
Fontes consultadas
Human Rights Watch — "Brazil: New Evidence of Serious Police Misconduct in Deadly Raid" (28/10/2026); Agência Brasil — "Um ano depois, mortes da Operação Contenção ainda são investigadas"; O Povo — "Um ano após massacre no Rio, investigação de ONG revela má conduta da polícia" (30/10/2026).
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
