O número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil no Brasil caiu para cerca de 1,5 milhão em 2025, uma redução de 9,2% — ou 151 mil pessoas a menos — em relação a 2024. É o menor patamar da série histórica iniciada em 2016, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em outubro.
De acordo com o IBGE, a proporção de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em trabalho infantil recuou de 4,3% para 4%, 0,3 ponto percentual a menos. É o menor índice já registrado pela pesquisa, superando a marca anterior de 4,2%, de 2023. Em 2016, início da série, o país somava 2,1 milhões de crianças e adolescentes nessa situação; o número caiu para 1,8 milhão em 2019 e subiu para 1,9 milhão em 2022, já na retomada pós-pandemia — não houve coleta em 2020 e 2021.
Bolsa Família concentra a maior parte da queda
O levantamento do IBGE mostra que o recuo está fortemente associado às famílias beneficiárias do Bolsa Família, programa que exige frequência escolar mínima dos dependentes. Nesses lares, o número de crianças e adolescentes em trabalho infantil caiu de 717 mil para 573 mil — queda de 20,1% — e a proporção foi de 5,2% para 4,4%. Segundo o instituto, essas famílias responderam por mais de 95% de toda a redução observada no país entre 2024 e 2025.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social registrou 18,7 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família em dezembro de 2025, 10,1% a menos que no mesmo mês de 2024, o que também é citado como fator associado ao resultado. Gustavo Geaquinto Fontes, analista do IBGE, atribuiu a queda a uma combinação de fatores: a exigência de frequência escolar do programa social, políticas específicas de combate ao trabalho infantil e a recuperação do emprego e da renda dos responsáveis pelas famílias.
Piores formas de trabalho infantil também recuam
A pesquisa também mediu a chamada Lista TIP, que reúne as piores formas de trabalho infantil, como operação de máquinas agrícolas, aplicação de agrotóxicos, escavações e manuseio de produtos químicos. Em 2025, essa lista contabilizou 525 mil crianças e adolescentes, uma queda de 6,3% frente aos 560 mil de 2024 e também a menor estimativa da série.
Meta da ONU para 2025 não foi cumprida
Apesar da melhora, o Brasil não cumpriu a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), que previa a eliminação de todas as formas de trabalho infantil até 2025. A legislação brasileira proíbe qualquer trabalho até os 13 anos; dos 14 aos 15 anos, só é permitido na condição de aprendiz; e dos 16 aos 17, apenas com carteira assinada, sem atividades insalubres, perigosas ou noturnas.
Para a Fundação Abrinq, organização dedicada aos direitos da infância, a melhora nos indicadores não pode ser confundida com a superação do problema. Em nota, a entidade defendeu a continuidade de políticas públicas, o fortalecimento da fiscalização e o acesso e a permanência das crianças na escola, afirmando ainda que "a sociedade também tem um papel importante ao não naturalizar práticas que violam os direitos" da infância.
Escolarização, perfil e remuneração
Entre as crianças e adolescentes em trabalho infantil, 86,9% frequentavam a escola em 2025, ante 97,5% da população total na mesma faixa etária — uma diferença que cresce entre os de 16 e 17 anos, grupo em que a frequência escolar foi de 79,6%, contra 89,6% do total da população dessa idade.
O perfil predominante é de meninos (65,4% dos casos, ante 51,2% na população geral) e de crianças e adolescentes pretos ou pardos (67%, ante 59,7% no total). A Região Norte concentrou a maior proporção de trabalho infantil do país, com 6,3%, enquanto o Sudeste teve a menor, com 3,3%. A renda média informada foi de R$ 936 por mês, abaixo do salário mínimo vigente em 2025, de R$ 1.518. Pesquisadores ouvidos por veículos especializados apontam ainda possível subnotificação nas respostas dadas por adultos sobre o trabalho de crianças no próprio domicílio.
Fontes consultadas: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/Pnad Contínua); reportagem da Folhapress publicada por O Tempo (16/10/2026); Fundação Abrinq.
Imagem de capa: ilustração gerada por inteligência artificial para fins editoriais.
